2 de abril de 2012

Calado

Não direi nada
sobre o que sinto agora.

Viajo calado
pelos teus braços bravios.

A têmpera dos teus laços
é como um desafio.

Nesse navio
nau solitária

vou como náufrago
em amálgama rara

rumo ao paraíso
em delírio.


4 de março de 2012



Altar de Deus

O sofrimento me fortalece.
Cada lágrima vertida
é como uma rosa
que planto no jardim
da minha alma.
E vou seguindo assim
banhado em calma
por tudo que a dor
faz por mim.
Sentindo a finitude
tão perto do coração
fico em plenitude
dessa emoção:
me torno mais ligeiro
entre heras e arbustos
sou ao mesmo tempo
jardim e jardineiro
do espírito meu.
Afinal, velhice e juventude
são apenas etapas irreversíveis
daquilo que estou a me tornar:
um ser humano verdadeiro
a rosa humilde
no altar de Deus.

9 de fevereiro de 2012






Antes do fim

Não faça planos para amanhã
porque o amanhã pode não vir
do jeito que imagina.

Ou virá de outro jeito
como menina alucinada

ou sirene de navio
em altas vagas

distanciando-se
como a memória de um beijo
ou um sorriso esquálido.

A morte espreita em cada quarto
em cada vão do terreno
onde plantamos sonhos
e sábados.

Eu me arrependo das promessas ditas
no intuito de agradar
a quem nem notava que existia
um pouco de verdade
nas minhas mentiras.

Jogamos pérolas aos porcos
todos os dias.

Nos outros dias
somos os porcos
buscando pérolas lançadas
por mãos vadias.

Se eu pudesse voltar no tempo
e ter o direito de escolher
eu não existiria.

Mas já que estou aqui
tentando ser verdadeiro
faço de toda mentira
uma poesia.

A verdade está lá fora
entre soldados
procurando por mim.

Hei de encontrá-la
lívido e calmo
antes do fim.

3 de fevereiro de 2012



De dentro de mim

Já bani do meu pensamento
o teu corpo. Da minha vida.
Fui tirando cada vestígio
de tua presença, do meu dia.

Rsguei as fotos. Apaguei as fitas.
Deletei videos, rasguei cartas.
Escondi os panos de prato
joguei no lixo cartões de viagem
bilhetes de cinema, extratos
convites de aniversário.

Troquei as cores da sala
mudei as chaves do armário
tornei a fazer as malas
e parti como um náufrago:
um corsário.

Mas lá do fundo do meu eu
tão fundo e tão frio
lá de um lugar escuro
que eu nem sabia que existia
ainda ouço a tua voz me chamando
entre prantos e maresia.

6 de janeiro de 2012













Defenestrado

Atinjo o ápice da resistência
quando fingo que não sinto
uma certa impaciência
um certo medo aflito
de estar onde estou
e ser o que sou
nesse recinto
amargo e frio.

Às vêzes sou o pária entre os párias
porque não encontro vocábulo rítmico
para dar vazão aos instintos
animais e meigos
que brotam do meu eu
(do meu umbigo)
do meu espírito
atribulado.

Se eu morresse, seria fácil:
estar deitado numa lápide
apodrecendo feliz
entre minhocas e ratos.

Mas a vida me quer vivo
e eu resisto, por enquanto
lutando como um bravo
como um gato
na tina de leite ácido
e envenenado.

Não sei o que virá depois
do último trago
do último trem
onde embarcou o senhor bizarro
dos meus pecados.

Estou esquecendo o meu nome
lentamente. Estou abrindo as comportas
do meu comportamento
solitário.

Lanço poemas pela janela
do meu armário.

No final, eu próprio
serei lançado.

8 de dezembro de 2011




Nota de culpa

Sou culpado por não ter proferido
a palavra exata no momento exato
Sou culpado por ter mentido
a mim mesmo no primeiro ato.

Sou culpado por ter permitido
a violência da razão dentro do sonho
E por ter destrancado a porta
do que eu achava certo, mas suponho

Que tudo o que eu pensava ser paixão
caiu num labirinto incolor
onde não se configura nada

Além da culpa, nas paredes pintadas
com as cores de um funeral do amor
e a minha culpa segue viva no caixão.

21 de outubro de 2011










Fiat lux!

Faça-se a luz dentro de mim
como por encanto sagrado
para eu desvendar, assim
o que tenho guardado

no escuro do meu peito
bem dentro do coração
iluminando com efeito
o que não tem solução.

21 de setembro de 2011



A grande verdade

Vou me acostumando a mentir
para mim mesmo e para os outros
dizendo que sou feliz
e tenho tudo o que preciso
como um cão perdigueiro
que ataca moscas no lixo.

A minha vida é uma retórica mentira
contada em décadas, mas eu não sinto
o peso da idade e os seus conflitos
mas sei que o pior ainda está por vir
dentro desse labirinto
e vai se aproximando dos meus passos
sem que nada me avise
do precipício.

à princípio somos todos iguais
escravizados nesse rito cotidiano
do escárnio em vez do riso.

O meu vizinho ainda insiste em lutar
contra o ócio, vivendo do ofício
de acreditar sem questionar
em tudo como se tudo
fizesse algum sentido.

A grande verdade é que estamos todos mortos
e vamos sendo lentamente consumidos
pela chama globalizada da modernidade
da mesma forma que os antigos.

15 de agosto de 2011

Ofélia

A decadência física de Ofélia
Os seios caídos, as tristes ancas
Ferem-me como dardos. Vê-la velha
Rasga a minha carne com mil lanças.

Por que o tempo foi assim tão cruel
Com tão perfeita e linda criatura?
Em pleno desespero, clamo a Deus do Céu
Tentando reparar a realidade dura.

Se o Senhor da Morte a houvesse levado
No esplendor da juventude grata
Eu talvez não estivesse sofrendo;

Tanto quanto agora, vendo o seu estado
Nessa amargura que aos poucos me mata
Assistindo Ofélia envelhecendo.








1 de agosto de 2011

Atroz

A idéia aproxima-se devagar
como uma sombra que chega
ou um amigo que se almeja conquistar.

A resistência de vida
vai sendo vencida
par a par
por pequenas coincidências
e subterfúgios.

Os demônios vão virando anjos
e o espaço entre a luz e as trevas
vai ficando pequeno
cativo, curto.

A dor inexpressiva
se exigue ante o tormento
de ter de ser feliz
ainda que sem brilho.

A noite desce
como um manto sagrado
e o sono parece doce
e abstrato.

O que vêm depois é calma
silencio e a lágrima
que escreve o seu caminho
pelo rosto.

O resto é o nada.